Não quero ser ninguém poderoso

25/08/20194 Min Read — In reflexo

Faz mais ou menos um ano e meio que estava começando o meu primeiro estágio. Minha primeira experiência profissional. Estava bem animado e bem confuso também, afinal era uma nova etapa na vida. Era um mundo misterioso e, pra minha surpresa a empresa de tecnologia que eu queria me contratou sem fazer nenhuma prova técnica. Ela pediu pra que eu preenchesse um questionário em que existiam os valores da empresa, ou pelo menos aquilo que eles estavam tentando criar e manter.

Eram uns 5 valores e eles pediam para descrever o que eu achava de cada um deles, dar um exemplo de como eu colocaria aquele valor em prática e como eu o estimularia. Foi um exercício que eu gostei bastante. Em uma das minhas respostas eu escrevi que não sabia como exercitar o valor How would I practice "passion and commitment to excellence?". Porque para mim era algo que se alinha muito com como você deixa alguém motivado para trabalhar e até hoje não sei a resposta para essa pergunta, mas a que dei na época ainda acho que continua valendo:

My most recent answer is that to be motivated you need to see the purpose and the why's of doing something. It is expecting and seeing the results of your job in other people's lives.

Enfim, não esse não é o foco desse texto pelo menos não hoje. Durante as primeiras semanas eles fizeram dois tipos de imersão, um deles era técnico, focado em aprender uma determinada tecnologia de desenvolvimento mobile (na época: swift, android ou react native). E o outro era a primeira versão dele, muito mais focado em mindset e de achar um propósito para as coisas que você estava fazendo. Lembro de uma resposta que eu dei a uma pergunta a qual não lembro exatamente, mas que era na linha: "Onde você quer estar daqui 10 anos? Qual o impacto que você quer ter no mundo?" e eu respondi de maneira relativamente fria e com a maior sinceridade (com um pouco de medo também, afinal quais são as implicações de se dizer isso nas suas primeiras duas semanas?)

"Não tenho a aspiração, nem a vontade de me tornar ninguém famoso ou rico, ninguém importante na escala global. Não quero criar minha empresa, não quero ser um CEO."

Muito do que se passava na minha cabeça era: "Se eu tiver o impacto junto com as pessoas que eu convivo no meu dia a dia, eu já vou estar extremamente feliz. Não preciso dessas outras coisas.". Hoje ainda concordo, não acho que preciso de muito mais do que isso.

Durante aquele mesmo estágio estava tentando entender algumas relações de responsabilidades e de impressões positivas/negativas que nunca compartilhei ninguém, porque pra mim era um sinal muito claro de eu querendo manipular coisas em torno da falta de iniciativa. Estaria mentido se eu dissesse que não era, mas ainda está bem atrelado ao que se passava na minha cabeça. O que escrevi foi:

Meu instinto, meu feeling me leva a pensar que responsabilidades são uma coisa ruim, pq se você fizesse algo que não deveria ser seu, aquilo foi bom, mas depois que você passa a ter a responsabilidade significa que a tarefa não é nada mais do que esperado que você faça.

Hoje eu li uma frase num post do medium (muito bom a propósito recomendo que você leia) que me esclareceu muita coisa, a frase era:

"Power is earned by taking responsability"

Acredito que aquela resposta sobre não querer ser ninguém famoso ou rico concentrava num significado: Não quero ser ninguém poderoso. Por isso que no meio desse estágio eu via assumir responsabilidades de coisas que eu não tinha antes como algo ruim: Se o que eu ganhava por meio de responsabilidades era poder e eu não queria poder, pra que que eu vou querer responsabilidades??

Naquele momento eu estava muito mais preocupado com o individual. Qual era o melhor trade-off de esforço com reconhecimento que eu podia fazer? Minha cabeça projetava: "Se eu tiver impacto junto com as pessoas que eu convivo no meu dia a dia, eu já vou estar extremamente feliz.". Mas minhas ações se traduziam de maneira muito melhor como "Se eu conseguir causar uma impressão positiva com as pessoas que eu convivo no meu dia a dia, eu já vou estar extremamente feliz." É tricky e difícil. Tenho certeza que ainda peco muito nisso. Seria legal se vcs notassem (e também não seria rs).

Tive toda essa realização hoje enquanto eu pensava em como que eu aumento o meu impacto de maneira positiva na empresa que eu trabalho. Ah e é claro no meio de tudo isso tive um outro aprendizado lendo o DISC de uma amiga: existem duas categorias de poder. Uma delas é o poder através de dominância. O outro é o poder via influência. Pra mim o importante é essa segunda faceta. Acho que até ler aquele DISC eu sempre tive uma concepção negativa de poder, que ele corrompe e causa mais mal do que bem. Até ler aquele DISC acho que nunca tinha notado duas coisas muito importantes: A influência é sim uma forma de poder e pode ser usada de maneira muito boa. (Talvez existam mais formas de poder, mas no momento me contento com a concepção dessas duas hehe).

Voltando ao ponto, concluímos que eu não queria ser ninguém poderoso, porém gostaria de ter impacto. Mas... O que significa ter impacto? Numa definição mais "física" impacto se assemelha muito a uma colisão, numa colisão dois corpos tem a quantidade de movimento (ou momento) alteradas, normalmente isso é resultado da exerção de uma força (causada pela colisão) por um determinado período de tempo.

Na minha concepção (claramente influenciada) ter impacto significa que suas ações mudarão de alguma forma a trajetória de algo. Para que nossas ações mudem o rumo de algo, mostra que um tipo de poder (ou força cof cof) foi exercido. Ou seja: existia um paradoxo na minha linha de raciocínio. Como poderia eu ao mesmo tempo não querer ter poder, e querer impactar as pessoas a minha volta?

Não sei, mas de todas as certezas uma: quero ter um impacto positivo nas pessoas a minha volta.

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