O diamante invertido da minha vida

25/04/20209 Min Read — In reflexo

Esse não é pra ser um texto muito coeso, mas se você estiver comigo, me acompanhe. Hoje quero escrever sobre a minha vida na igreja, minha vida no trabalho, minhas alegrias e frustrações, meu senso de identidade em meio a muitas coisas.

Pra começar vamos ver algo um pouco aleatório: se você já esteve um pouco de contato com design thinking, talvez você já tenha visto o processo de double diamond. O conceito é simples e segue a imagem a seguir

duplo diamante

No começo você expande o escopo tentando entender e aprender quais os problemas, ter uma visão geral. Em seguida o escopo começa a diminuir o escopo tentando definir qual o problema mais crítico que deve ser resolvido. Esse é o final do primeiro diamante em que teoricamente você tem o problema que vai ser atacado bem definido. Em seguida o diamante começa a expandir de novo em que ideias são jogadas na mesa, diferentes soluções surgem. Agora o diamante começa a diminuir, pois essas ideias são testadas e riscadas fora e refinadas, até que a melhor ideia é testada iterada e bang temos uma solução para um problema importante.

Expliquei de maneira bem curta (e a realidade nem sempre é tão simples), mas o que eu queria era emprestar esse conceito para a visaulização do que tem sido o escopo de possibilidaes (e talvez emocional, talvez liberal?) da minha vida. Se conseguissemos visualizar ao longo do tempo ela seria mais ou menos um diamante invertido:

diamante invertido

Quando você é criança tudo é mágico, você faz várias perguntas e recebe diversos tipos de respostas, respostas boas, respostas opinionadas e até mesmo respostas erradas. Você está num momento de muitas descobertas, no momento no primeiro momento do diamante invertido: as possibilidades são infinitas. Ai você vai crescendo, aprendendo coisas boas, aprendendo coisas opinionadas e coisas erradas. Nesse meio tempo você vai criando as suas opiniões, seus julgamentos, mudando suas ações de acordo com situações que você viveu.

Então vamos começar pelo começo e eu acho que essas foram duas experiências que moldaram muito do que eu sou (ou melhor refletindo um pouco agora do que eu fui e do que eu sou).

A primeira é clássica e algumas pessoas já conhecem. Quando eu era pequeno, lá pelos 7 ou 8 anos, eu gostava (na real ainda gosto, mas detalhes) muito de jogar mario kart 64 com meus pais. Uma determinada noite eu estava jogando com a minha mãe e lembro muito bem que a gente estava em moo moo farm, eu em primeiro e minha mãe lá atrás. Com um pequeno detalhe: ela estava com um casco azul. Como era um jogo split-screen e eu não era bobo nem nada, falei pra minha mãe, "Não joga esse casco". Passou alguns segundos e minha mãe lançou. Lembro de ter ficado muito bravo, mas muiito bravo com a minha mãe. Não lembro exatamente o que eu fiz, mas provavelmente devo ter gritado e esperniado. Acabou aquela corrida e minha mãe estava séria e falou: "nunca mais eu vou jogar esse jogo com você". Dito e feito. Acho que a primeira vez que eu joguei mario kart com ela de novo foi no ensino médio na época do wii. Foi duro, mas eu te amo mãe ❤️. Esse foi o primeiro sinal que demonstrar minhas ações podiam afastar as pessoas e que muito do que eu tinha feito naquele momento era porque eu estava com raiva. Comecei a inconscientemente prestar mais atenção quando ficava bravo e no final classifiquei a raiva como errado e desconectei dela.

A segunda não tão explorada e provavelmente pouco comentada por mim: até 5a série mais ou menos eu era bem conhecido por ser "chorão" ou pelo menos era fácil que as pessoas me "machucassem". Até que em um determinado dia uma menina no meio da aula enquanto a gente fazia exercícios de matemática começou a discutir com o meu melhor amigo (eu sentava na diagonal esquerda oposta da sala) e eu não lembro o fraseamento exato, mas o significado era: "Ele só chora para conseguir pessoas do lado dele, ele nem fica triste de verdade." e eu lembro de falar "vc sabe que eu to ouvindo, né?" e ela falou "sei sim, Jonathan". Nossa naquele momento tudo o que eu mais queria fazer era chorar, me senti atacado, invalidaram meus sentimentos, além disso falaram que era intencional, que eu estava mentindo, que eu estava sendo falso, que eu estava manipulando as pessoas ao meu redor. Mas se eu chorasse só ia validar o ponto dela. Naquele momento eu segurei o meu choro o mais forte que eu conseguia e falei pra mim mesmo: "Tá bom. Eu não vou mais chorar.". E demorou para que eu chorasse de novo. Na verdade demorou muito pra que eu genuinamente chorasse de novo. A partir daquele momento eu classifiquei a tristeza como errado e desconectei dela.

E esse é um ponto meio bizarro, quando eu falo desconectei é diferente de suprimir ou segurar: eu parei de sentir. Não era mais aquele sentimento de raiva que eu controlava ou aquela tristeza que eu segurava. Era como se alguém tivesse colocado analgésicos e eu simplesmente não sentia mais essas emoções de forma a influenciar o meu comportamento.

Esses foram dois breves exemplos de como eventos mudaram, mesmo que inconscientemente, como eu agia e como eu entendia o mundo. Mas o suficiente de compartilhar eventos pessoais demais na internet rs.

Crescer em um lar cristão e asiático também moldou muito o meu entendimento de certo e errado. Ao mesmo tempo que eu aprendia coisas boas como sempre dar o meu melhor, também aprendia que pessoas pobres são pobres porque não se esforçam. Ao mesmo tempo que eu aprendia sobre amar o próximo, também aprendia que dois homens se beijando é errado. Ao mesmo tempo que eu aprendia que estudar era bom, também aprendia que pessoas que bebem vão pro inferno. Ao mesmo tempo que eu aprendi a sempre questionar e procurar entender como as coisas funcionam, também aprendia a jamais questionar as autoridades.

Todas essas desconexões somadas as visões determinísticas do que era certo e errado foram bem úteis: conseguia focar nos estudos, em ler a bíblia, em fazer as tarefas de casa, obedecer cegamente as autoridades e todas aquelas coisas que são supostamente chatas. A minha saída de Curitiba pra São Paulo é o momento em que eu considero que o diamante estava mais fechado. Eu sabia exatamente o que era certo e o que era errado. Naquele momento querendo ou não, as possibilidades de escolha eram menores.

Uma das coisas que mais me chacoalhou (isso é um verbo?) no começo da faculdade foi um determinado dia que eu falei que eu não bebia. Me perguntaram de boas: "ahhh, não sabia... porque?". Eu parei e pensei, porque é errado oras. Mas calma porque é errado? É, Jonathan, por que é errado? Porque tá na bíblia, e a bíblia é a fonte de toda a verdade. Ai eu fiquei, hmm mas essa resposta não é boa o suficiente. Tipo legal, mas eu não aceitaria essa resposta de alguém, parece um porque sim e ponto. Isso me chacoalhou não por causa da pergunta em si, mas porque eu sempre considerei que as minhas escolhas eram bem estruturadas e tinham uma linha de raciocínio bem estabelecida. A partir dai todos os questionamentos não resolvidos previamente e simplesmente aceitados começaram a pipocar de volta e os muros começaram a ruir. Uma coisa que eu ouvi esses tempos sobre a igreja é como ela desmoronou em sua procura pela verdade, que uma das diretrizes da fé cristã seria a busca pela verdade e essa busca acabou trazendo questionamentos que ela não conseguia responder.

A pergunta não foi uma virada repentina, mas foi um processo em que eu fui aos poucos desaprendendo o que era certo e o que era errado. O sentimento pervasivo em muito desse processo era de culpa. Que seja lá o que eu estivesse fazendo quebrando esses muros, era errado e eu estava me deixando levar pelo inimigo. E aquela frase de que uma mentira contada mil vezes passa a ser verdade pegou forte. Por muito tempo era inconcebível que um professor estivesse errado pra mim. Que alguém que bebe fosse uma pessoa boa. Que uma depressão pudesse ser curada com orações e boa vontade.

Acho que o maior progresso na abertura de escopo começou a vir no último ano de faculdade e com o meu segundo estágio.

Lembro que durante o meu primeiro estágio eu tive duas conversas muito estranhas com o que eram o fundador e um líder técnico lá dentro. Nesse meu primeiro estágio a premissa era que quem tinha que descobrir o que você quer fazer é você. Você deve descobrir no que você quer se desenvolver, com que pessoas você gostaria de trabalhar, etc. Incentivar isso é uma coisa honesta e foi bom que eles tenham incentivado. Foi por causa desse incentivo que tive essas duas conversas, a conversa com um dos fundadores me fez descobrir que a empresa que eu trabalhava não tinha muito um motivo de existir quando surgiu. Era uma prova da capacidade do fundador de gerir um negócio sendo bem novo. Antes de eu entrar me contaram que estavam desenvolvendo um mote (meio que uma frase bonita para descrever a visão da empresa), mas me pareceu muito que o mote veio depois de pessoas se mostrarem insatisfeitas com a visão da empresa. Apesar do mote ser bom(incrível arrisco a dizer, eu realmente gosto do mote) e que a sua origem tenha sido genuína. O mote por si só não segura a empresa como motivação de ser, como se fosse algo band-aid tentando segurar um problema de visão maior. A conversa com o líder técnico me deixou frustrado, principalmente quanto a visão de desenvolvimento das pessoas. Segundo a visão dele a natureza humana é falha e se você der aberturas e não ser rigorosos nós vamos falhar. Falhar em nos desenvolver, falhar em estudar, falhar em nossos objetivos. Se essas visões fossem simplesmente as deles estaria tudo bem, mas esse tipo de coisa permeia pelas entranhas de uma companhia de maneira invisível em que a mensagem era: eu não confio em você se desenvolver sozinho. A minha experiência lá dentro foi de um tanto paradoxal: ao mesmo tempo que eles tentavam ser explícitos com o que queriam havia muita coisa implicita nas explicidades. Um exemplo que me lembro bem era o fato deles serem uma empresa de tecnologia, composta principalmente por desenvolvedores e designers não permitirem home-office. Em meio a crise dos caminhoneiros ao anunciarem uma fase de teste falarem: "O home-office não é para ser aquele dia em que você vai aproveitar e ir ao médico ou aproveitar pra ir no mercado ou fazer no dia seguinte de uma festa, apesar dessas coisas serem óbvias é importante deixar claro porque não existem coisas óbvias". Existe toda uma carga de eu não confio em vocês para fazerem o seu trabalho (ou administrar o seu tempo).

Se você olhar do lado de fora o meu primeiro e o meu segundo estágio por fora você diria que eles são lugares muito parecidos, uma quantidade pequena de colaboradores, envolvidos no ramo de tecnologia, composta de desenvolvedores. Mas eu garanto que foi muito diferente.

As primeiras semanas foram relativamente parecidas, com bastante leitura, mas dava pra perceber que as pessoas eram muito mais autenticas no meu segundo estágio. E quando eu digo autenticas, elas eram muito menos inibidas e falavam o que pensavam. O sentimento era que ninguém era detentor de um caminho que funciona, que mesmo que a gente errasse no meio do caminho, estava tudo bem a gente se prepara para a próxima vez que isso acontecer não cairmos no mesmo problema. O sentimento era de confiança e que seja lá o que aconteça, beleza bora levar isso junto.

Nesse novo ambiente errar e se expressar era muito mais do que bem visto. Era incentivado. É claro que ninguém vai querer errar de propósito, mas são coisas que acontecem e que muito mais do que se cobrar e se martirizar é conseguir se levantar. É claro que se expressar também não significa sair explodindo ou falando o que vier na cabeça, mas conseguir falar de problemas abertamente sabendo que isso não é ruim. Tem um ditado aqui dentro que a gente "estraga" quem entra, mas muito mais do que isso eu acho que o que a gente faz de melhor é incentivar elas a serem elas mesmas. Isso extrai as melhores forças de todos que trabalham aqui. É claro que nós somos todos humanos e talvez quando o líder técnico tivesse falado que nós vamos falhar, ele estava certo. Nós vamos. Essa é a nossa natureza. Mas isso não impera que nós nos tornamos pessoas ruins por não conseguir estarmos sempre certos. Isso não impera que precisamos estar sempre vigiados para conseguir atingir o que planejamos. Isso não impera que não possamos confiar nos outros.

Foi nesse ambiente de maior liberdade que aprendi que tudo bem estar triste, que expor o que eu sentia era válido ao contrário do que tinha aprendido na 5a série. Que tudo bem se algo te deixar extremamente puto, que uma parte no valor disso tudo é usar as suas emoções pra melhorar o lugar onde você está. Eu me reconectei aos sentimentos antes classificados como intrinsicamente ruins . E tem vezes que vamos errar nesse processo, errar na decisão em primeiro lugar. Errar na maneira que expomos nossos sentimentos. Errar na análise. Mas isso não nos impede de prosseguir, porque estamos todos tentando ser pessoas melhores e a melhorar num todo. Esse ambiente abriu os meus horizontes, antes restritos por diversas coisas que aprendi inconscientemente pelos ambientes que frequentei.

Foram com essas aberturas que eu fui ganhando cada vez mais confiança pra errar, pra não estar sempre certo. Pra não sempre ter certeza de todas as coisas. Pra me arriscar mais. Pra viver uma vida que é mais leve e livre de culpa. Pra expandir o diamante invertido que tem sido a minha vida.

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